Ailton Reis
Semana passada estava desconcentrado. Minha mente foi, por dias, tão eficiente quanto órgãos públicos. Escrevia e-mails, alimentava meu cágado, lia teóricos da comunicação. Nada realmente útil. Ainda bem que passou. Só faltou-me deixar a barba crescer e me filiar num partido de esquerda.
Esse vazio ideológico coincidiu com a “semana de democratização da comunicação”. Um evento organizado por estudantes para “discutir” pela enésima vez as mesmas coisas. Não me decepcionei, não fui ingênuo, não esperava grande coisa. Foram três dias de pura empulhação. Muita conversa, fuxico, bate-papo, produção zero. Senti-me em casa.
Logo de cara, uma “apresentação teatral” dava o tom do que estava por vir. Uma papagaiada extremamente mal ensaiada, com aspirações a uma profundidade inexistente. Altamente previsível. Altamente dispensável. Embora todo o manto da mistificação cênica, típica da “arte moderna”, nublasse o cenário, qualquer um com bom senso riria daquela situação. Provocou-me nostalgia. Veio-me a mente a infância, com todas aquelas peças escolares completamente improvisadas que as mães euforicamente aplaudem.
O que se seguiu foi um exemplo claro do que cérebros constantemente ociosos são capazes de produzir. Um mar de impropérios recheado de muita hipocrisia e contradições profundas. Em certo ponto, num dos painéis, um indivíduo criticou a ação voluntária dos amigos da escola. ‘Precisamos de emprego, dinheiro, não de trabalho voluntário’ (algo assim). Já no final, o mesmo infeliz defendeu o engajamento de militantes em rádios comunitárias. ‘Não é rentável, mas é o tipo de projeto importante, que te engrandece’. Cego em sua ideologia, não percebe a contradição da mesma. Acha uma perda de tempo, um ato execrável, qualquer ação solidária que não tenha intuito de divulgar ideais marxistas.
Em outra memorável ocasião, no calor de um monólogo, sentindo que está dominando a situação, um esquerdista qualquer, apoiado por uma citação, afirmou que o jornalismo é impraticável no capitalismo. “Com o capital circulando, nunca se chegaria a uma imparcialidade” (fala aproximada). Mas que diabos ele quer dizer com isso? Fui para casa com essa dúvida. Não quis acreditar que ele estava defendendo o socialismo. Seria ridículo demais, até para mentalmente castrados, achar que num totalitarismo-esquerdista possa existir uma prática mais saudável que na democracia capitalista.
Sim, obviamente o jornalismo no Brasil é podre. Mas isso não é decorrente da lógica do capital, ao contrário. Se há 15 anos o Foro de São Paulo é sistematicamente desprezado pela mídia brasileira, devemos agradecer à invasão gramsciana em todos os setores da sociedade. Meus colegas de labuta não visualizam que a grande mídia é composta por jornalistas inspirados por esses mesmos ideais anacrônicos. Não percebem que é esse o problema. Fazem uma crítica ao que farão daqui a 4 ou 5 anos quando saírem da universidade.
Foi bom participar de tal encontro. Conheci meus futuros 'companheiros' de profissão. Tomei dimensão da realidade, percebi o quão fadado à marginalidade estou.
O Brasil é um acidente geográfico. Um erro sociológico. Deveríamos parar de querer ser um país desenvolvido e voltarmos às ocas.
"A máxima utilidade da Folha de São Paulo é limpar bunda. Bunda não lê, se lesse, seria um crime utilizar tal jornal" Olavo de Carvalho
8 comentários:
O Olavo não falou em bunda... foi uma palavra muito próxima... e outra: disse alfabetizado, não que não lê...
hehehe, valeu pela correção.
palavra bem próxima, hum, tá difícil...
Putz...como você escapou deste festival de imbecilização coletiva ? Como é possível você não ter ficado bobo que nem os outros ? Eles sabem disso ? hummm, pensando bem, acho que não...eles devem sentir que você é diferente, fala umas coisas incompreensíveis e ficam rindo que nem "Homer".
Hehe, Realmente o Brasil deve ser um "erro sociológico". Muito lúcido seu texto pra quem "ta começando". Abcs!!
Tiago -Orkut
Os anacronismos dessa polarizaçao ideologica...
Eu acredito no poder transformador da informaçao. Quem sabe um dia eu consigo informar que existe muito mais por trás da lógica mercado-ideologia do que a maioria das pessoas pensa...
Aaahh... os "simpósios" das universidades.
Ano passado na Filosofia (de São Paulo) fui assistir a um debate sobre o aborto.
Os debatedores eram uma mulher do Grupo "Católicas pelo direito de decidir", pessoas que se dizem católicas mas defendem o aborto, e a representante de uma tal "marcha mundial das mulheres", pessoas que se dizem anti-católicas e que defendem o aborto.
Amor ao debate igual nunca se viu!
Belo blog, Aílton; muito bem escrito, se é que minha opinião vale.
Gostei de ler este post. Entrei para conferir seu blog e o pus nos meus favoritos, assim, com um pequeno gesto vejo se te incentivo a continuar seu trabalho de produção.
Como sempre, um texto muito bom, o que não me impede de fazer uma pequena observação: Se "há 15 anos o Foro de São Paulo é sistematicamente desprezado pela mídia brasileira" o que dizer da pseudo direita brasileira, detentora quase absoluta dos mass media? Pq o próprio PSDB jamais tocou no caso Foro de São Paulo? Contradições, meu caro. Exatamente por isso, não acho que segmentações ideológicas possam nos levar a lugar algum, sejam essas de direita ou de esquerda. Mas, sabe que tenho a mesma opinião sobre a "magníca" semana da democratização da comunicação.
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