Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

Culturalmente restritos

Ailton Reis

Não faz muito tempo fui a uma exposição, “Visitando acervos”. Alguns quadros interessantes, outras esculturas legais. Confesso tinha uns bem ruinzinhos, ou apenas não “compreendi o artista”. Com exceção de mim e minha acompanhante, localizei com dificuldade outras pessoas, que posteriormente verifiquei, trabalhavam na galeria.

Pesquisei na internet. Pesquisei bastante. Procurei diversos artigos e notícias acerca da cultura em Sergipe. Encontrei um aparente consenso. Quase todos tocam no ponto da desvalorização. Afirmam que o estado produz um bom material e que o mesmo não é devidamente prestigiado.

Bom, quando há um consenso em nossa mídia é porque algo está muito errado. Fazendo uma rápida análise, é fácil perceber a falha na lógica.

Os artistas têm o reconhecimento esperado. Nem mais, nem menos. Sergipe é um estado pequeno. O menor da federação. Sua população total é baixa, não chega a dois milhões. Pintura e escultura são práticas culturais de público restrito. Seus apreciadores são, em média, pessoas de alta escolaridade e de certo poder aquisitivo. Uma parcela pequena do todo. E dessa parcela, ainda são minoria. Ou seja, como alguém ainda pode esperar um público satisfatoriamente grande para tais obras?

É óbvio, está na cara. Na lista de prioridades, esses trabalhos, com certeza, são os últimos. Caso alguém leve a sério a criação de uma cultura sólida para o estado, deveria pensar primeiro em educação. Se “com” ela, os anseios populacionais estão majoritariamente relacionados com suas necessidades físicas e seus gostos mercantilizados, imagine sem.

Segunda sugestão: tenha filhos. Muitos deles. Não só você, mas como seus parentes. Convença a todos a voltarem aos áureos tempos, e terem uma prole que passe dos cinco. Somente com um crescimento demográfico vertiginoso teremos uma população grande o suficiente para obtermos uma maior diversificação cultural.

Tudo isso é muito trabalhoso? Quer grande público agora? Seja competente o suficiente para sair daqui e ser reconhecido lá fora. Não espere soluções mágicas do governo, nem imagine que alguns festivais irão resolver o problema. Esse é o fardo das cidades pequenas. Gostos não se impõem, se cultivam.

* "Artigo" originalmente produzido para a disciplina "Téc. de produção, reportagem e redação jornalística I", UFS.

8 comentários:

Anônimo disse...

você não passa de um projeto de "pseudo moralista que nem Diogo Mainardi"!!!

Ailton disse...

Legal.

E você é mais um que, por falta de argumentos, não tem coragem de se identificar.

É realmente humilhante não conseguir formular uma crítica decente:
"não passa de um projeto de pseudo moralista"
OU seja, eu tento ser um "pseudo"-moralista e não consigo!!!

huauhauhauhauhhuauhhaha

wagner disse...

esse ai ta nervosinho...

Joel Pinheiro disse...

A maioria dos artistas intelectuais de hoje em dia tem horror ao público. Não quer fazer nada para as massas. Tampouco quer se pautar pelos ideais "ultrapassados" da arte ocidental.

Se eles querem assim, que seja. Ninguém pode forçá-los a mudar sua arte. Mas que entendam que suas escolhas têm conseqüências: se não querem agradar ao público, se não querem se curvar aos ideais do passado, então serão pouquíssimas as pessoas que quererão ver sua arte, e muito menos ajudar a financiá-la.

Mas não. Inconformados com essa situação, esses artistas julgam que têm o direito de receber dinheiro e instalações do governo, ou seja, às custas do resto da população, exatamente aquele resto cujo gosto e preferências eles desprezam.

Claro que a arte do sujeito é desprestigiada. Ela é mantida por recursos tirados à força da população e feita sem a menor intenção de se relacionar com essa população.

Getúlio Cajé disse...

Gostei do seu viés persuasivo. E mesmo quem nao concorda com suas palavras, o q nao é o meu caso, há de convir, pelo menos, com a retorica apresentada.

"Agente nao quer só comida", mas num país como o Brasil há uma serie de prioridades q cabam afastando o gosto artistico do cotidiano das pessoas.

Ailton disse...

Joel,

Chico Buarque enquadra-se perfeitamente em sua definição. O pior é que a contradição nele é ainda mais acentuada. Não suporta as "elites", seu esquerdismo é patente, adoraria que o brasil fosse uma extensão de Cuba, mas não vive sem os altos cachês (pagos pelas elites) e a liberdade de expressão para falar suas bobagens, coisa que só a democracia proporciona (parafraseando R. COnstantino).

Getúlio,

Valeu! Espero que Kadydja também goste :)
E que não estranhe minha retórica.

Fernando Júnior disse...

Ter muitos filhos? Voce realmente acha essa uma saida para uma diversificação cultural e um refinamento estético dos públicos?

No mais, um bom texto, Ailton =)

Ailton disse...

hehe, Júnior,

O percentual que gosta de tais expressões culturais continuaria o mesmo, porém, o número absoluto aumentaria. Se essa é uma medidade viável, aí são outros 500.