O carnaval chegou. Nessas horas, o Brasil é notícia mundo afora. Todos param para ver as bundas seminuas das mulatas no sambódromo. Não que ache ruim, longe disso. Dou a atenção que considero justa, vejo os reprises com o melhor de cada traseiro. Mas, outro fato tipicamente brasileiro desperta a atenção da mídia. O menino no Rio foi brutalmente assassinado, e tudo que nosso presidente vocifera é que a culpa é da sociedade, é nossa.
Mas esse não é um caso isolado. Por ano, 50.000 brasileiros são assassinados. O narcotráfico aumenta vertiginosamente, as FARC deixaram de ser distribuidora das drogas para entregá-las em domicílio. “É o pôgressiu”. A mente brasileira está entorpecida, e as críticas que poderiam despertar são inócuas, pois, por canalhice estratégica, apontam para o lado errado: a sociedade, “o sistema”.
Crimes hediondos não podem ser previstos, nem justificados. Além de que, os marginais que mataram João tinham família e não passavam necessidades. O que os compeliu não foi o “capitalismo voraz”, mas a certeza de não serem punidos com rigor. Isso é óbvio.
Isentar a responsabilidade individual para criticar o statu quo é típico do pensamento esquerdista. Quando o excelentíssimo Jeca critica a sociedade, ele diz, na verdade, que nesse mundo “injusto” sempre haverá barbáries. Segundo tal visão, não adianta reformar as leis nem fortalecer as instituições. São necessários todos nossos esforços para a construção de uma época de paz e igualdade entre os homens.
A busca pela sociedade “perfeita” é o grande pressuposto socialista. Em nome deste inalcançável ideal, todos as ações são válidas e cobertas pelo véu da moralidade. Nesse contexto, pratica-se o mal em nome do bem.*
Eles trucidaram 100 milhões de pessoas no século passado. Mas isso, é claro, foi contra sua amável natureza altruísta. Tudo em prol da causa maior. Os opositores, por ficarem no caminho deste maravilhoso projeto, devem ser aniquilados sem dó. É o famoso "no perder la ternura jamás".
Por que atualmente esquerdóides são vistos como guerreiros da ética e moral? Como tão grande inversão de valores aconteceu? A resposta é extensa, farei um resumo ilustrativo.
Por trás da teoria marxista de história, está uma distorção do pensamento cristão. Entre os séculos XIV e XVII, com a formação dos estados nacionais, o equilíbrio feudal foi rompido. A cobiça por ganhos fáceis, corrupção, guerra e miséria impregnavam o mundo como jamais se viu. Atônitos, sem saber o que fazer, muitos monges e teólogos decidiram que estava na hora de agir e, com a boa intenção de restaurar a ordem, quiseram impor o reino de Deus na Terra.
Cegos na causa, os defensores dessa pretensão não perceberam que suas ambições superavam aos dos césares que combatiam. Acima dos diversos reinos humanos que surgiam, deveria ser imposto o reino mundial de Cristo, a Nova Ordem Mundial (termo criado na época). O catolicismo, vale ressaltar, nunca teve essa ambição. A distinção entre Igreja e Império foi a base do consenso medieval.
Vendo o quão distante estavam de sua idealização, não viram outra maneira de alcançá-la num prazo razoável senão através da violência e anarquia; mais acentuadas do que as que originalmente combateram. A reforma luterana serviu como um contra-movimento que deteve a revolução e permitiu ao cristianismo sobreviver em locais em que a influência estava diminuindo.
O mundo perfeito, que Agostinho bem teorizou, existe apenas na cidade de Deus, na eternidade. Aquela vertente messiânica imputou à força o reino de Justiça para dentro da história, proclamando ser esse o próximo capítulo. Um futuro a ser alcançado, e que, quando alcançado, duraria “eternamente”. Uma grande bobagem que, se analisada criticamente, é refutada com facilidade.
O maior efeito desse messianismo não foi político-social. Mas, justamente, as marcas que essa inversão deixou na cultura dos povos europeus.
“O mito do instante perpétuo está por baixo da ‘paz eterna’ de Rousseau, da ‘da lei dos três estados’ de Comte, da ideologia cientificista-materialista do ‘progresso’ e, é claro, da teoria marxista da história como luta de classes destinada a desembocar no esplendor milênio proletário” (Olavo de Carvalho, 2007).
Utilizado como instrumento de poder, essa premissa de "busca de uma sociedade futura sem injustiças" foi a desculpa perfeita que os tiranos pediram. Dessa forma, a ideologia dos mais bárbaros ganhou status não apenas religioso, mas de autoridade divina. Dessa forma, os déspotas de esquerda ganharam licença para matar.
* Já posso prever críticas encolerizadas, acusando-me de maniqueísta, ou como o anônimo sem cérebro afirmou no post anterior, mais um "projeto de pseudo-moralista".
1- Não sou relativista. A moral cristã foi fundamental para a construção da sociedade moderna civilizada (não incluo URSS ou China Maoísta). Por mais que alguns pontos possam ser polêmicos, sua base é inquestionável.
2- Originalmente, o termo maniqueísta consiste em equalizar o bem e o mal como princípios, neutralizando a diferença de valor que os separa. Ou seja, é uma visão relativista, na qual ninguém teria condição de julgar ações de outrem. Utilizar isso com fins pejorativos é inofensivo, pois a própria semântica da palavra revela a falsidade do uso.
2 comentários:
Qualquer tipo de fanatismo é negativo. Qualquer cegueira será sempre o inverso do altruísmo e do bem-estar coletivo.
Por coincidência, tambem escrevi sobre o carnaval...depois dá uma lida, rapaz =)
Abraço!
Olá Aílton.
Concordo com sua análise do crescimento de ideologias utópicas a partir do fim da Idade Média.
Vale a pena ler sobre as seitas Anabatistas e como elas instauraram o "reindo de Deus" na terra em algumas cidades alemãs e holandeses na época da Reforma. Pior que qualquer distopia criada pelos escritores modernos.
E do outro lado tinha o absolutismo monárquico, violando todos os laços medievais que funcionavam como controles para todos os poderes estabelecidos. E para justificar tal tese, lá vieram as teorias do direito divino dos reis.
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